Chamo-me Fátima porque a minha mãe é devota de Nossa Senhora de Fátima. Durante a minha infância ouvi vezes sem conta a história dos três pastorinhos que, enquanto apascentavam as suas ovelhas, viram uma senhora vestida de branco, que lhes pediu para rezar muito. Ainda hoje guardo com carinho a imagem da Senhora de Fátima que me foi oferecida pela minha primeira catequista e o livro infantil dado pela minha mãe. Mais por consideração a quem mos ofereceu do que propriamente devido à fé. Mas a verdade é que não consigo desfazer-me destes objectos.
Quando entrei na adolescência e comecei a interessar-me pela leitura de jornais e de livros que não os juvenis, comecei a interrogar-me sobre a história que ouvi repetidas vezes à minha catequista, à minha avó e à minha mãe. O que é uma aparição? É como um sonho, em que vemos coisas que na verdade só existem na nossa imaginação? E por que é que só os pastorinhos é que viram a Senhora? Por que é que as outras pessoas não conseguiram vê-La? Entre tantas outras dúvidas às quais nunca consegui encontrar respostas que me satisfizessem.
As aparições de Fátima continuam a apaixonar milhares de pessoas em todo o mundo, crentes e não crentes, católicos e não católicos, homens e mulheres. Vem tudo isto a propósito de mais uma tertúlia realizada ontem à noite na Livraria Ler Devagar, com o escritor Luís Miguel Rocha, precisamente sobre este tema. E foi muito interessante assistir ao debate de teorias e ideias entre crentes e não crentes, entre a ciência e a fé, entre os que acreditam (têm fé?) que um dia a ciência vai dar uma resposta a todas as dúvidas e os que duvidam (têm fé?) que isso alguma vez acontecerá relativamente a tudo aquilo para o qual não temos resposta.
Não posso deixar de confessar que sinto algo dentro de mim quando entro no Santuário de Fátima, mas também questiono tudo o que é dito e escrito e, sobretudo, muito do que é feito em nome dessas aparições. Como jornalista e historiadora cabe-me questionar, confrontar e interpretar as várias fontes. Como ser humano tenho necessidade de acreditar que há algo (alguém) para lá de nós. Serão estas duas facetas incompatíveis?
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