segunda-feira, 30 de maio de 2011

"Franco foi autoritário, mas não totalitário" (sic)

Em Espanha, como em Portugal, os anos de ditadura estão ainda muito presentes na memória colectiva e são ainda motivo de grandes emoções e discussões. Só assim se percebe que Oliveira Salazar tenha sido eleito o maior português de sempre, num programa lançado pela RTP em 2007, e que no ano seguinte tenham existido grandes manifestações de contestação à abertura de um Museu Salazar em Santa Comba Dão. E que os livros sobre o Estado Novo e as suas principais figuras sejam dos mais vendidos.


Em Espanha, o regime de Franco causa iguais sentimentos contraditórios. Quem não se recorda do processo judicial contra o juiz Baltazar Garzón por querer investigar os crimes cometidos durante o franquismo? A polémica mais recente estalou este fim-de-semana com o lançamento dos primeiros 25 volumes do Dicionário Biográfico Espanhol, obra da responsabilidade da Real Academia da História, financiado pelo Governo espanhol.


A ministra da Cultura, Ángeles Gonzalez-Sinde insurgiu-se contra o facto de a presença de figuras femininas ser escassíssima e considerou que o Dicionário "não se ajusta à realidade". Mas o ponto mais polémico prende-se com a biografia do generalíssimo Franco, que nunca é classificado como ditador. Franco "montó um regime autoritário, mas não totalitário", é apenas uma das frases mais contestadas.


O que me chocou particularmente foi a justificação dada pelo director da Real Academia de História para que nunca seja utilizada a palavra ditador. Para a "gente jovem", que não viveu a época franquista, "diz-lhes mais o termo autoritário do que ditatorial, porque talvez não saibam bem o que é uma ditadura" (dixit).


Por esta ordem de razão, e uma vez que também não viveu aquela época, a "gente jovem" não saberá o que foi o Renascimento, a inquisição, os Descobrimentos, o crash de 1929, as guerras mundias, etc., etc., etc. Argumentos como este são próprios de quem tenta negar os factos históricos e reescrever a História com base em motivações ideológicas e não nos documentos, testemunhos e outras ferramentas que um verdadeiro historiador utilizar no seu mester.

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