Há precisamente 100 anos, uma mulher portuguesa desafiou os poderes instalados e exigiu a inscrição do seu nome nos cadernos de recenseamento das eleições para a Assembleia Nacional Constituinte. Carolina Beatriz Ângelo, médica ginecologista, maior de idade, viúva e mãe de uma filha menor, preenchia os requisitos exigidos pela Lei Eleitoral, mas mesmo assim teve que travar uma luta judicial para que pudesse exercer esse seu direito. António José de Almeida, ministro do Interior do Governo Provisório e grande apoiante das lutas feministas, rejeitou o seu pedido e só após uma decisão judicial favorável, Carolina Beatriz Ângelo pode votar nas eleições de 28 de Maio de 1911. Foi a primeira mulher da Península Ibérica a exercer o direito de voto, mas esta sua ousadia teve um custo: dois anos mais tarde, a Lei Eleitoral foi alterada, passandos a ser eleitores para os cargos legislativos "todos os cidadãos do sexo masculino [...]".
Para assinalar este marco na história dos feminismos em Portugal e, por que não dizê-lo, da democracia, realizou-se hoje o seminário "Percursos Históricos e de Cidadania - Carolina Beatriz Ângelo, 100 anos depois". Uma organização da UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta em parceria com o Grupo de Estudos, Género e Sociedade (CEMRI - Universidade Aberta), Faces de Eva (CESNOVA - Universidade Nova de Lisboa) e APEM (Associação Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres).
Uma excelente oportunidade não só para evocar o feito de Carolina Beatriz Ângelo e das feministas portuguesas da primeira vaga, mas também para debater e apontar caminhos para os problemas que ainda hoje as mulheres enfrentam. Tal como há 100 anos, nos dias de hoje, a taxa de desemprego feminina é mais elevada do que a dos homens; os salários das mulheres são mais baixos do que os dos homens, mesmo quando ocupam os mesmos cargos; e os cargos de decisão política, económica, social, académica, etc., são maioritariamente ocupados por homens.
Por estas e outras razões, há que não baixar os braços e continuar a lutar uma sociedade paritária, igualitária e justa. Esta não é uma luta exclusiva das mulheres, mas da sociedade no seu todo, na qual nenhum de nós se deve excluir.

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